INSEGURANÇA ALIMENTAR ATINGE NÍVEIS ALARMANTES E EXPÕE FALHAS DO ESTADO

O retrato traçado pelo Relatório sobre a Escala de Experiência de Insegurança Alimentar (FIES, sigla inglesa) 2025, divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), e consultado hoje pelo Folha 8, é tudo menos animador: milhões de angolanos continuam sem saber se terão o que comer no dia seguinte. O documento revela um país onde a fome deixou de ser uma exceção para se tornar uma experiência recorrente, sobretudo entre os mais vulneráveis.

Por Geraldo José Letras

Segundo os dados do FIES, uma parcela significativa da população vive em situação de insegurança alimentar moderada a grave. Na prática, isso traduz-se em famílias que reduzem o número de refeições, adultos que sacrificam a própria alimentação para alimentar os filhos e crianças expostas a défices nutricionais com consequências irreversíveis no seu desenvolvimento físico e cognitivo.

Isso mesmo confirmaram à nossa reportagem os cidadãos João Bernabé e Dorotéia, taxista e vendedeira ambulante de ocupação: “Mano, você escolhe, ou comem os filhos ou come você. Está mal!”.

A gravidade da situação não é apenas estatística — é estrutural. O relatório aponta que a insegurança alimentar em Angola está profundamente ligada à pobreza persistente, ao desemprego elevado e à fragilidade do sistema produtivo nacional. Num país com vastos recursos agrícolas, a incapacidade de garantir comida suficiente para a sua população revela um paradoxo gritante e, sobretudo, uma falha de governação.

Especialistas alertam que a dependência excessiva das importações de bens alimentares continua a agravar o problema. Com a volatilidade dos preços internacionais e a desvalorização da moeda nacional, o acesso a alimentos básicos torna-se cada vez mais difícil para a maioria da população. O resultado é um ciclo vicioso: menos poder de compra, pior alimentação, mais vulnerabilidade social.

No meio rural, onde se esperaria maior resiliência alimentar, o cenário é igualmente preocupante. A falta de investimento consistente na agricultura familiar, a ausência de infraestruturas de escoamento e o limitado acesso a crédito e insumos agrícolas perpetuam a baixa produtividade. O campo, que deveria ser solução, transforma-se em mais um epicentro da crise.

Já nas áreas urbanas, especialmente em Luanda, o custo de vida elevado agrava a insegurança alimentar. O crescimento desordenado das periferias, aliado ao desemprego e à informalidade, cria bolsões de pobreza onde a alimentação adequada é um luxo distante. Aqui, a fome não é visível nas estatísticas oficiais do dia-a-dia, mas está presente nos pratos vazios de milhares de famílias.

Apesar dos sucessivos discursos políticos sobre diversificação da economia e aposta na produção nacional, o relatório do INE evidencia um desfasamento entre a retórica e a realidade. Programas públicos anunciados com pompa raramente se traduzem em melhorias concretas na mesa dos cidadãos. A ausência de políticas eficazes e monitoradas levanta sérias dúvidas sobre a capacidade do Executivo em enfrentar um problema que é, antes de tudo, humano.

Organizações internacionais têm reiterado a necessidade de Angola reforçar as políticas de proteção social e investir de forma estratégica na segurança alimentar. No entanto, a resposta institucional continua aquém da urgência. Sem uma intervenção coordenada, que envolva produção, distribuição e acesso, o país corre o risco de agravar ainda mais os indicadores nos próximos anos.

O FIES 2025 não deixa margem para complacência: a fome em Angola não é apenas consequência de fatores externos, mas também resultado de decisões internas — ou da falta delas. Num país onde a riqueza natural contrasta com a pobreza alimentar, a pergunta impõe-se: até quando a insegurança alimentar continuará a ser tratada como um problema secundário?

Visitado 161 times, 1 visitas hoje

Artigos Relacionados

One Thought to “INSEGURANÇA ALIMENTAR ATINGE NÍVEIS ALARMANTES E EXPÕE FALHAS DO ESTADO”

Leave a Comment